Meditação

September 1, 2017

 

Minha amiga Heliana estava construindo este site e sugeriu que eu escrevesse um texto breve sobre meditação. Deparei-me com uma tarefa bem difícil, resumir tantos séculos de sabedoria budista em poucas palavras. Será possível? Heliana é doutora em design, mora na Inglaterra, tem tanto amor e delicadeza na alma que, mesmo distante, está dando “vida virtual” ao nosso projeto com tanta sensibilidade e doçura que parece estar dentro do sítio da celebração, conversando e saboreando os doces de figo junto com a gente... Acho que só os artistas conseguem sentir e criar coisas assim...

 

As raízes constitutivas da meditação são budistas. Foram eles que durante séculos praticaram, estudaram, desenvolveram e aperfeiçoaram os métodos e as técnicas meditativas. Mas, primeiro preciso dar o meu depoimento pessoal, contar da minha experiência, porque não existe meditação sem a experiência de meditar. Podemos ler, estudar, palestrar, conhecer as técnicas, enfim saber tudo sobre o tema, mas se não fizermos a experiência pessoal, que é intransferível, não saberemos o que é meditar.

Comecei com as práticas de atenção introspectiva bem cedo na minha vida, ainda no começo da faculdade. Não tive exemplos, nem modelos, acho que foi tudo meio intuitivo... Fui batizada na igreja católica, mas nunca fui praticante. Minha mãe era espírita kardecista, descendente de italianos, extrovertida e falante, e meu pai não tinha religião..., ele era a paz e a compaixão numa só pessoa... Nossa casa, entretanto, era barulhenta e movimentada. Ninguém era chegado a silêncios, práticas introspectivas ou meditativas na minha família.

Sempre acordei muito cedo e me percebia mais calma, quando, de manhã, ficava no meu quarto, um tempo em silêncio ou em oração, antes de sair para a faculdade. Fui regulando os tempos até sentir que mais ou menos meia hora por dia assim, me deixava muito mais feliz! Passei para repetições cada vez mais freqüentes, até que se tornou naturalmente um hábito muito bom! Sentia falta quando não fazia minha prática silenciosa. A partir desta experiência pessoal comecei a me interessar pela filosofia oriental..., e nunca mais parei de estudá-la e reverenciá-la!

 

Considero-me cristã e amo o budismo! Não passei por nenhum ritual de tomada de refúgio, uma prática que inicia os adeptos ao budismo. Compreendo o budismo como uma ciência riquíssima da mente, com 2500 de história, estudos e práticas relacionadas ao funcionamento da mente. Uma ciência pura que apresenta ferramentas e estratégias interessantíssimas para o trabalho interior, visando o auto-conhecimento e a auto-transformação.

 

Meditação é um método! Um treino mental! Em tibetano (Gom), significa familiarização. Em sânscrito (Bhavana), significa cultivo. Familiarização ou cultivo com uma forma de ser... Uma forma de ser onde passamos a observar nossos próprios pensamentos, compreendendo que eles chegam e partem, não precisamos nos agarrar a eles. Compreende-se que a mente produz os pensamentos, mas os pensamentos não fazem parte da natureza intrínseca da mente! Podemos deixar os pensamentos partir, observando simplesmente este estado e repetindo esta tarefa com atenção, por algum tempo.

 

Importante ancorar nossa atenção na respiração. E assim, olhos entreabertos ou fechados, respirando calmamente em um local silencioso, podemos começar nossa prática. Sentamos numa cadeira com a coluna ereta, fora do encosto, com os pés no chão, ombros relaxados, mãos sobre as coxas, palmas para cima, mão esquerda abaixo da direita... Ou numa almofada, coluna ereta, seguindo as mesmas orientações. Importante recomeçar sempre, sem críticas, sem julgamentos, para cada pensamento que surge, uma nova despedida...

Fala-se de esvaziar a mente ou não pensar, somos pobres demais para tais estados. O que acontece com as repetições diárias do treino, é que passamos a ser observadores de nós mesmos. Nossa atenção melhora! E podemos intervir de forma positiva na nossa vida mental, desconstituindo gradativamente padrões disfuncionais, destrutivos e negativos. Chama-se a isso de desidentificação com os pensamentos e com estes padrões! Progressivamente, a freqüência de surgimento de pensamentos aleatórios, caóticos e tumultuados vai diminuindo, porque não são cultivados. A mente vai se tornando mais calma e partir daí podemos fazer escolhas mais sábias para nossas vidas. Aumentamos assim o foco naquilo que nos faz bem e queremos cultivar...

Não é nada fácil este treino! Na verdade é um trabalho duro! Exige esforço, disciplina, persistência! É como ganhar músculos numa academia. Já tentaram? Quem malha sabe que não é fácil. Desenvolver os “músculos” da atenção e da calma mental exige esforço, concentração e dedicação.

 

A principal motivação para a meditação deve ser sempre o desenvolvimento da compaixão, incluindo a auto-compaixão que se traduz pela aspiração de libertação do próprio sofrimento e do sofrimento de todos os seres sencientes... Buda, após sua iluminação, propôs um caminho espiritual para a libertação do sofrimento, chamado Nobre Óctuplo Caminho, composto por várias práticas e atitudes que devem ser seguidas, as últimas práticas referem-se à meditação.

 

Minha convicção mais profunda é esta: passamos tanto tempo da nossa vida nos preocupando com a aparência do nosso corpo, fazendo nossa higiene pessoal, escolhendo alimentos melhores, cozinhando de forma mais saudável, fazendo exercícios, exames periódicos, tratando nossas doenças, estudando, trabalhando para promover melhores condições sociais, etc... Porque não dedicarmos parte do nosso tempo à nossa interioridade, ao desenvolvimento da nossa paz interior?

 

Meditação é um método, um treino mental, um caminho para paz! “As raízes da meditação são inegavelmente budistas, mas o caminho é patrimônio universal”. São tantos caminhos..., devemos escolher algum, que nos ajude a nos tornar pessoas mais sábias e melhores.

 

Gostaria de finalizar lembrando de uma passagem atribuída a um velho homem ameríndio: “Uma luta implacável se desenrola em nós”, diz ele a seu neto. “Uma luta entre dois lobos. Um é mau, ele é ódio, avidez, arrogância, inveja, rancor, egoísmo e mentira. O outro é bom, ele é amor, paciência, generosidade, humildade, perdão, benevolência e retidão. Os dois lobos brigam entre si dentro de você como em todos os homens”. Silêncio... A criança reflete uns instantes e pergunta: “Qual dos dois lobos vai ganhar?” O avô responde: “Aquele que você alimentar”.

 

 

 

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