A Noite da Bruxa

December 18, 2017

A rotina era estafante. Criava as meninas sozinha em Brasília, não tinha parentes na cidade. Vivia estressada, correndo, trabalhando 40 horas por semana na secretaria de saúde e fazendo consultório nas tardes de “folga” e à noite. Só via bancos e contas pela frente. Pagava aluguéis, condomínios, secretária, empregada, contador, ISS, INSS, luz, telefones, e uma lista interminável de outras coisas. Fazia feira, supermercado, as crianças adoeciam, o pneu furava, o carburador da brasilinha branca que eu tinha entupia e me deixava na mão nas piores horas. E não existia celular...


– Doutora, telefone da casa da senhora, lá na administração. É Alda, a empregada.


O coração disparou na hora, as pernas tremeram...  Estava atendendo uma paciente com crise de asma, irmã do diretor. Olhei o banco da sala de espera e faltava atender 5 pacientes. O que faria? Fui correndo atender...


– Alda, aconteceu alguma coisa com as crianças?
– Não doutora, acabou a cebola, esqueci de falar. Como vou fazer o almoço?
– Alda, você me mata de susto!


Como era difícil! Fazia terapia com um psicanalista. Era um espaço para chorar e chorar, longe das meninas. Sonhava frequentemente atravessando um rio, passando por uma pinguela de madeira velha, muito estreita, segurando firme a mão das crianças, uma de cada lado. Havia uma inundação e o rio estava cheio, barrento, com uma grande correnteza embaixo. Eu não podia dar um passo falso..., cairiam as três. Precisava chegar com as crianças na outra margem. Lá elas estariam seguras. Era uma travessia trágica, extremamente perigosa, chovia muito, as crianças choravam de medo e eu não tinha escolha.  E era exatamente assim que eu me sentia na vida real.

 

 

Após um desses dias... cheguei em casa faminta e exausta por volta das 9 da noite. Alda estava de mala pronta, na porta de casa, esperando eu chegar para dizer que ia embora naquela noite.


– Mas, o que aconteceu? Você sabe que não tenho com quem deixar as meninas! Tenho plantão amanhã as 7 da manhã! Por favor Alda, não faça isso! O que houve?
– Lívia é muito mal-criada! Mordeu minha mão! Olha só como está!
Meu Deus, que susto! A mão da moça estava roxa e toda inchada.
– Não fico aqui mais de jeito nenhum!
– Vou conversar com Lívia. Ela não vai mais fazer isso não, prometo a você!
– Ela não faz mais isso, mais vai fazer outras coisas. Ela é muito desobediente. Não sei como a senhora vai fazer com essa menina. Ela é terrível!
– Por favor, me espere um pouco...


Passei a mão nas crianças, entrei no quarto, fechei a porta e disse a Lívia:


– Sabe o que eu fazer se Alda for embora agora? Vou arranjar uma bruxa bem feia que mora lá trás do hospital para tomar conta de você! Tá me ouvindo?


Ela aregalou o olho e disse: – Uma bruuuuuuuxa? De vassoura e tudo?


– De vassoura e tudo!
Que nervoso! Que vontade de rir e chorar ao mesmo tempo!
–Nana, você ouviu isso? Mamãe vai arranjar uma bruxa de vassoura e tudo para tomar conta da gente!
– Eu hein! Nem acredito em bruxa!
Logo respondeu a irmã...
– Ai meu Deus! Tem umas que até comem criança! Com certeza ela não vai gostar de mim porque sou levada. Por favor mãe! Não chama não! Prometo que não mordo mais ninguém! Nem minha irmã! Por favor!
– Então, vai pedir desculpas a Alda e dizer que nunca mais vai morder ninguém.
– Eu peço, eu juro!
– Alda, por favor me desculpa. Já jurei para minha mãe que não mordo mais você nem ninguém mais! Prometo ser boazinha. Por favor Alda! Mamãe disse que vai buscar uma bruxa de vassoura e tudo que mora lá trás do hospital pra tomar conta da gente e com certeza ela vai me matar porque sou levada. Eu vou morrer, Alda! Não vai embora não! A bruxa vai me matar! E Lívia chorava de soluçar... Sempre intensa e passional implorava a moça para ficar...


A moça tinha uma alma boa. Riu para mim e disse que esperava eu arrumar uma outra pessoa. Não precisaria buscar a bruxa, porque, com certeza ela se zangaria muito com Lívia. Coloquei Lívia de castigo e fui buscar um remédio para a Alda. Quando voltei, nós duas rimos juntas, na cozinha, da bruxa, de vassoura e tudo!


Passaram-se 2 semanas e Lívia mordeu a Alda novamente e ela foi embora de vez. Lívia foi punida e estava de castigo. Andava desconfiada  da inexistência das bruxas, mas continuava amando estórias de sereias e temendo às das bruxas. Continuava impulssiva e rebelde.  Alda sempre a obrigava subir na melhor hora da brincadeira. Ficava com muita raiva. Ah menina difícil! Rezei pedindo aos anjos uma alma boa para tomar conta das çrianças. No mesmo dia apareceu uma moça com ótimas referências. Amei a Norma, foi amor a primeira vista! Era mulata, baiana, gordinha, tinha uma boca grande, lábios grossos, um olhar sincero e um grande sorriso. Era solteira e mãe de Pedro Henrique, de 2 anos. A tia tomava conta dele enquanto ela trabalhava. Ajudava sua mãe e seus irmãos na Bahia. Contei sobre minha vida e as crianças, relatando inclusive os últimos acontecimentos. Sentia-me perdida com Lívia!


– E a outra menina? Perguntou ela?
– A outra é muito calma, boazinha, não é levada.  É difícil para comer, dá trabalho! Às vezes faz pirraça. Pirraças difíceis! Mas, não é sempre.
– Vou ter uma conversinha com a levadinha! Prometo a senhora que não vou fazer nada com ela. Mas ela vai ter que me respeitar. Agora, essa outra aí...Quem pode com criança que faz pirraça? Só o tempo... E Deus! A senhora concorda?


Norma já foi comigo para casa.
No outro dia perguntei as crianças se tinham gostado da Norma.
Desta vez, Mariana fez questão de começar, parecia assombrada...


– Mãe, ela é muito brava! Acho que Lívia tá morrendo de medo dela! Ela disse que sabe morder bem forte, bem mais forte que Lívia! E você não tem noção de como ela é forte. Sabe a barra lá da pracinha? Mãe! Ela faz um monte de coisa...Ela tem muita força! E disse que se o filho dela não obedecer, apanha feio mesmo... E ai de uma criança que não respeitar ela...
– É mesmo? Poxa vida, hein? E aí Lívia, você ficou com medo da Norma?
– Eu fiquei, né? Imagina? Se ela faz isso com o filho dela... Eu falei que você manda ela embora se ela me bater... Mãe, ela tem um bocão, né? Cada dentão! E deve ter uma mão pesada! Precisa ver os braços dela! Mãe, ela não pode bater na gente...
– Não, não pode mesmo. Mas, se você mordê-la...
– Eu hein mãe, até parece...
Graças a Deus! A psicologia da Norma havia funcionado.
– E você Nana? Também ficou com medo?
– Claro que não! Não mordo, nem bato em ninguém. Não tenho medo dela!


Norma foi uma grande amiga e irmã, ficou dois anos comigo. Adorava as meninas e tinha uma moral de me dar inveja. Fazia pequenas concessões a Lívia, do tipo deixar brincar mais 15 minutos e com estes pequenos acordos, foi ganhando sua confiança. Em troca, Lívia obedecia. Mariana era de fato muito meiga e boazinha. Mas, com ela não tinha acordos... Só o tempo a faria mudar, abandonar as birras, comer verduras e acreditar no poder dos mitos.

 

 

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