A novena da minha mãe

December 18, 2017

 

Nasci em 60. Naquela época que não tinha leite de caixinha, fast food, copo descartável, fralda descartável, etc. As fraldas eram lavadas e alvejadas. Acho que nem existe mais isso. Falava-se com desconfiança de uma tal matéria plástica que iria revolucionar o mundo. Não existia shopping center, notebook, internet, celular. Outro dia minha filha perguntou: – como vocês viviam? TV era preto e branco. E os discos? Eram de vinil! Eu adorava... Tínhamos uma vitrola...


Cresci, de fato não muito (rs), nem o suficiente para acompanhar o ritmo frenético de crescimento dos descartáveis. Eles, na verdade, me confundem e até hoje tenho problemas com essa tecnologia industrial e humana... Esta cultura realmente não me seduz. Sou péssima em relação aos descartáveis! Gosto dos meus amigos de sempre! Sou sincera, romântica, o que posso fazer? Talvez esse seja um problema só meu. Não que tenha a pretensão da exclusividade de um problema. É que tudo virou tão comum. Definitivamente não sou uma mulher moderna. Pior é que não quero ser, não faço questão de ser. Talvez já tenha nascido anacrônica...


Aprecio a surpresa, a liberdade de amar!  A sedução da música, da dança! Gosto do comprometimento natural, da sensibilidade, do afeto e da doçura... Todo mundo gosta, não somos seres originais...     
Tenho problemas também com as aventuras amorosas descartáveis. Acho que este é um problema de ordem temporal..., rs.  Estas relações nunca terminam no tempo certo de acabar! Ou terminam muito antes de começar, às vezes, nas primeiras horas e o que prometia ser belo vira um fiasco. Ou então..., se prolongam “adolescentemente,” dentro de mim, muito além do término. Será que tem mais gente assim? Já vivi situações, que, sinceramente não sei que importância tiveram ou que diferença fizeram. Viraram nada! Nada? Nada mesmo! Não gosto de momentos, coisas, pessoas ou situações que viram nada. Não gosto de momentos sem memórias... Talvez também tenha alguns problemas com o “nada”, com o vazio da banalidade..., com a frivolidade e a superficialidade... É que os significados são essenciais para mim, ainda que sejam só para mim...


Mulheres livres sempre se deparam com homens comprometidos, casados, ou quase separados... Já ouvi tantas histórias...   


“Sou casado, noivo, namoro há muito tempo... Mas..., não sou feliz!”
“Nunca fui feliz com minha mulher. Não consigo conversar com ela. O que nos une são os filhos”...
“Só temos o sexo e nada mais em comum.”
“Nos habituamos um ao outro...”
“Já terminamos, não quero mais, ela continua ligando e me procurando..., é difícil!”
“Somos bons amigos, irmãos e nada mais... Não existe nenhum desejo”...
“O problema é a questão financeira... Minha mulher é minha sócia na empresa”...

Tenho um amigo super inteligente e culto. Sua mulher é bailarina, linda e fútil, conta ele. Há 12 anos estão juntos. Ele diz não ter nada em comum com ela. Só o apartamento, os carros, 2 filhos, o cachorro, o sítio, a casa de praia e agora ela está grávida! De gêmeos...! O que fazer? Mas, ele jura! Ama a namorada!


Um outro, ex-colega de departamento da faculdade, casou-se com uma linda dondoca. Vazia e frívola, conta ele. Diz que é impossível conversar com ela. Mas, literalmente ele voa para o Rio todos os finais de semana ao encontro dela. Esse diz ter preguiça de separar... Gosta da família dela. Os amigos são comuns, gostam dos mesmos bares e está tudo arrumado na casa dela. E por aí vai... Enquanto isso ele namorava nossas alunas da faculdade...


E com isso, minha mãe andava preocupada por eu não ter um namorado. Ela não entendia que eu vivia um luto pelo último casamento desfeito... Achava uma grande bobagem o tal do luto sem defunto, rs! Nunca vi disso, dizia ela quando eu tentava explicar o tal luto..., rs.  Resolveu fazer uma novena para me ajudar. E nada! Depois me disse ter feito uma versão, digamos assim..., reduzida da novena. – Como assim, mãe??? Perguntei apavorada! Ela explicou que deveria rezar um terço por dia, disse ela, durante nove dias! Assim ensinaram a ela... Nunca havia feito uma novena antes, comentou. Mas, queria muito me ajudar, eu andava triste... Mas achou muito chato fazer novena... Explicou que o terço é muito longo, tem muitas contas, cada conta é uma reza, são muitas repetições das rezas, não tinha paciência não... Era um exagero tudo aquilo! Então, rezou só as três primeiras contas... Durante os nove dias! Achou mais que o suficiente... Afinal, eu era inteligente, elegante, charmosa..., não precisaria de tantas rezas assim... ­– Para que um terço inteiro de rezas...? Não acreditei no que estava ouvindo...! Reclamei! Pedi por favor uma novena certa! Expliquei que ela não poderia mudar as regras do terço e da novena. Afinal, promessa..., era algo sério! Ela disse que não fazia não! De terço inteiro não fazia não! Achou muito chato rezar terço e fazer novena! E disse para eu mesma fazer! Afinal, a interessada era eu e o namorado era para mim e não para ela. Achei justo... Perdoei minha mãe! Assim era ela, crítica, alegre, prática, direta e econômica até nas rezas! Rimos juntas...


Fiquei ansiosa com a história dessa novena, sempre imaginando o que poderia me acontecer ou aparecer... Não entendo de terços, santos e novenas... Sou até um pouco cética... E outra, sinto-me tão vulnerável por mim mesma... E agora estou sob uma proteção de um santo que não conheço e que não foi devidamente invocado com as rezas certas... Só minha mãe para fazer isso comigo...
Assim vou vivendo, preferindo sempre as aventuras junto ao mar, matas e montanhas...


E vou pagando o preço da incompatibilidade com nossa cultura, optando, quando posso, pelos não descartáveis!  E quando não posso mais...

Ai meu Deus que medo!!! Da novena da minha mãe!!!


 

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