Antes da maré encher!

December 18, 2017

Foram-se todos...
Lá estava parte de mim, diante de parte de você, paralisada pela minha dor...
Você partira...
Não sei ainda onde é ou fica o Desconhecido. Nem mesmo sei se é um lugar, um espaço, um tempo, tudo isso ou nada disso. Só sei que você foi para lá...
E eu, deveria voltar à minha vida, agora, mais que nunca, desconhecida.
Seus restos voltavam ao seio da terra. E os meus? Não sabia o que fazer com eles, onde levá-los... Eles insistiam em sobreviver sobre a terra...
Pressentia a eterna nostalgia...
Não ouviria mais sua voz, não escutaria mais seus planos, seus sonhos...
Não veria mais o brilho do seu olhar...
Foi-se a compreensão por princípio...
E a comunicação silenciosa dos que se amam sem fala...  
Acabou-se o colo generoso, a discordância amorosa, a crítica que jamais insulta, a observação que nunca deprecia, o deboche que não fere, as denúncias que não machucam, a certeza da cumplicidade e da lealdade.
Desmoronaram-se, ainda, as pontes da aceitação, construídas,
entre e sobre tantas diferenças...
Esta despedida perversa e cruel levara, ainda consigo, a celebração de belas semelhanças e de outras nem tanto, porém, tão confortáveis sempre...
Tantas coisas partiram da minha vida com você, meu pai...
Será que partiram para sempre?
Talvez estes significados também pertençam ao Desconhecido. Egocêntrico este Mistério... Leva-nos sem explicações... Concedendo-nos apenas as memórias como consolo. Ou desconsolo?
Lá, aqui, ali, você continua presente, me presenteando sempre com caras lembranças da sua imensa compaixão.
Aprendi, de fato, a escutar sua voz sem ouvir som algum... A enxergá-lo nas redes de pesca, em cada barco ancorado no mar ou no mangue... A amar o silêncio... E no nosso silencioso diálogo, você continua dizendo...“Cuide de você! Chega de tanto estudar, de tantos livros!” Não faz muito tempo, tive um sonho... Andávamos de barco, como tantas vezes... Ancoramos, conversamos... Era sol de meio dia, hora de mar manso, calor sem brisa, maré baixa... Fui sentar na ponta da proa. Meu lugar preferido dos barcos. Você me chamou e disse com a calma de sempre: “– Minha filha, precisamos ir, puxe a âncora comigo! – Vamos? Força! Mas..., escute! Vou sozinho em outra direção... Desta vez, você não vai comigo! Pule do barco! Nade com força para a margem direita, e..., não olhe para trás! Coragem! Nade com força e não chore! Você sabe que preciso ir..., está na minha hora de partir! Agora... Vá! Pule do barco e nade...Antes da maré encher...”

 

 

 

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