Ensinaram-me a nadar...

December 18, 2017

Era uma manhã ensolarada de domingo, o mar estava azul e transparente... Não me recordo exatamente quando foi... Era muito pequena...


Meu pai montava os remos de um pequeno barco, numa praia calma do Rio, onde nasci, e eu ajudava orgulhosa nas pequenas tarefas e brincava na areia, com a espuma das ondas mansas que se desfaziam calmamente e chegavam até nossos pés... Sentia-me triste, lembrando do meu pintinho que morrera... Minha mãe o comprara na feira, após meus incontáveis pedidos e ele havia morrido... Não podia aceitar isso. Pensava em desenhá-lo novamente quando chegasse em casa. Não queria esquecê-lo. Meus pais teimavam em insistir no tal esquecimento e davam explicações sobre a vida e a morte... Nada me consolava. Olhava o mar silenciosamente, fascinada como sempre, pela beleza das cores e pelo movimento das ondas... Ainda não sabia nadar... Meu pai arriscou um assunto...
– Sabia que os animais sabem nadar? Ninguém precisa ensiná-los, já nascem sabendo. Sabia que crianças pequenas também podem nadar sozinhas?


Na hora pensei baixinho: acho que tenho medo!


E ele adivinhando meus pensamentos continuou... Só tem um problema... O medo nos faz afundar...
Continuei pensando... Prefiro mesmo ficar em cima do barco... Já estou acostumada, sei que não afunda...


Lá vinham outras lições... As pessoas se apavoram, ficam com medo, querem lutar contra a água. Não devemos fazer isso, não precisamos ter medo, nem lutar contra a correnteza... Devemos sempre manter a calma, dentro e fora da água... Sabia que cachorros sabem nadar?
Morava no Rio, só conhecia os bichos da pracinha e do zoológico. Fiquei tentando imaginar cachorros nadando... O que meu pai estava tentando me dizer? Será que crianças pequenas podiam realmente nadar? E como cachorros conseguiam fazer isso... Era muita provocação para minha curiosidade. Afastei-me devagar... Fui entrando na água... Pensava nos cachorros nadando... Meu pai segurou firme na minha mão e assim, começaram as primeiras lições... Logo depois, aprendi a nadar...
Tempos depois aprendi a permanecer em silêncio, sonhar acordada e apreciar a quietude. Não precisei de lições... Aprendi sozinha. Tinha uma certa semelhança com mergulhar... E eu, amava mergulhar em águas claras... Dividia-me entre a realidade externa e a minha realidade subjetiva, interna. Não sabia bem a qual lado pertencia e frequentemente confundia as partes. Na verdade, até hoje padeço com esta confusão. Sou ameaçada por ela. Tento esconder, disfarçar, mas nem sempre consigo. Minha ambição, ambivalente com certeza, era o convencimento da normalidade do mundo real externo. Mas, lá vinha, lá vem o outro mundo me confundindo outra vez, tomando meus pensamentos, destronando minha pobre razão. Descobri que não possuía autonomia sobre mim... Não podia excluir nenhuma das partes...


Meu irmão complicava minha vida, aumentava minhas dúvidas e abalava minhas incertezas. Dizia que eu era filha de índios e que meus pais tinham me adotado ao nascer. Todos escondiam a verdade. Não adiantaria perguntar, ninguém falaria a verdade. E por isso eu era igual a um bichinho do mato. Fazia sentido, pensava eu...


E se eu fosse de outro planeta? Melhor seria manter tudo em segredo... Não haveria salvação para alguém tão diferente como eu...


Antes de tudo isso, conta minha mãe, andei, é claro! Aos sete meses! Como é possível? Conta que não engatinhei... Andei no berço e depois fora dele, sozinha. Fico imaginando hoje, os sentimentos que me motivaram a tamanho esforço. Só poderia ser algo que prezo muito: honra, dignidade, postura... Atitude! Com certeza, atitude! As pessoas que me cercavam mantinham-se sobre os dois pés. Amava gatos e cachorros, mas eles andavam sobre quatro patas... Os macacos do zoológico pulavam de galho em galho e seguravam o corpo com o próprio rabo. Vibrava com a destreza deles. Só eles podiam fazer aquilo, eram absolutamente originais. Apesar de que, algumas pessoas, herdaram isso de alguma forma... E o fazem muito bem... Mas eu, apesar das diferenças, parecia-me mais com minha família mesmo... Portanto, o jeito era  manter-me de pé e andar. Assim imagino que foi e assim também imagino ter construído meu primeiro conceito de dignidade. Independente de qualquer julgamento, a postura era sincera.


As lições para sobreviver em terra firme foram precárias. Nunca aprendi o suficiente. Ou talvez, eu já fosse um ser inepto para este aprendizado. “Aprenda a lutar, vencer, competir!” “O mundo é dos espertos”! “O dinheiro move o mundo”! “Vá brincar com as meninas de sua idade... De casinha, coisinha, cozinha, marido e filhos...” Quantas informações complicadas para mim... Pensava sozinha: quando crescer..., vou ser médica! Ouvia com freqüência as preocupações e reclamações da minha mãe, a meu respeito, com meu pai. O que será dessa menina? Ela vive no mundo da lua! Não vive em terra firme! Pare de levá-la para o mar! Desde sempre metida em barco!!! Pescaria e acampamento não são coisas de menina. E barco não é lugar de menina! Onde já se viu isso?  


Esta é a minha história! Assim aprendi a andar, nadar, mergulhar, sonhar... Outras coisas, aprendo sofrendo, chorando, amando! Outras coisas, o tempo me conta, os livros, os contos, a dança, a vida... De fato, minha mãe tinha razão, não estou plantada em terra firme! Prefiro sempre o etéreo, o silêncio do mar e das matas. Comtemplar as montanhas, o céu estrelado, os vales, as curvas dos rios... Ser livre, sonhar e amar!


Mergulhar, sempre! 

 

 

 


 

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