Entre Sopas e Sereias!

December 18, 2017

Minha vida sempre foi marcada pela presença de muitos opostos internos e externos. Cheia de ambivalências, algumas inconciliáveis, tive que aprender desde cedo a conciliar os opostos dentro de mim. Meus pais, com certeza, foram a experiência mais precoce que tive, relacionada a convivência com temperamentos opostos. Mas, o futuro me reservava o impensável... Duas filhas absolutamente opostas em tudo... Minha mãe frequentemente chamava Lívia, a mais velha, carinhosamente, de caboclo ventania. E meu pai dizia que Mariana era uma princesa. Princesa nórdica! Ela só não gosta de ser contrariada. E completava: – concordo com ela, também não gosto!


As meninas ainda eram bem pequenas e as diferenças já eram enormes. A medida que o tempo passava,  as diferenças cresciam junto com elas... Mas, aquele ano foi decisivo, prometia ser um ano de grandes revelações. Não me sentia pronta nem preparada para responder as demandas que surgiam, jamais estaria...  


Morávamos em Brasília! As crianças estavam alvoroçadas na saída da escola. Era o primeiro dia de aula. Fui buscar as meninas no jardim. Lívia queria contar tudo de uma só vez. Falava por ela e pela irmã. Contava as novidades das tias, dos colegas, das salas, dos enfeites da escola, dos lanches, etc.  E enquanto contava, pelo caminho, já ia tirando o tênis, a meia, dizia que sentia calor nos pés... Mas, já sabíamos que este ritual se referia a alguma coisa relacionada a não perder tempo quando chegasse em casa. Elas tinham 1 hora para brincar embaixo do prédio, depois da aula, antes do jantar, e assim, chegando descalça, ela economizava tempo. Estava muito feliz de rever seus amigos e não parava de falar. No recreio, tinha brincado outra vez de pega-ladrão, sua brincadeira preferida. E tinha sido novamente o ladrão. Muito mais legal ser o ladrão! Mariana não tinha pressa em contar nada. Eu tinha sempre que perguntar, observar e descobrir o que se passava com ela. Estava sempre lindinha, impecável e de baton, mesmo após a aula. Suas amiguinhas eram sempre comportadas como ela. Lívia contou para todo mundo que passou as férias na casa da avó em Vitória, foi a praia todos os dias com os avós e etc. E Amanda, sua melhor amiga, disse ter ido para casa dos avós em Fortaleza. Amanda era uma das mais levadas da escola e amiga inseparável de Lívia, claro!


– Mãe, lembrei de uma coisa...Amanda me disse...


Pensei na hora: ai meu Deus, lá vem!


– Mãe, Amanda viu uma sereia linda, de verdade, numa praia lá de Fortaleza. Ela tinha os olhos azuis e o cabelo muito loiro e comprido...


Ah! Que garota danada, essa Amanda! E agora? O que digo? Não sabia o que fazer... Para ganhar tempo perguntei a Mariana:


– Você ouviu esta estória da Amanda, Nana?  O que você acha?
– Mãe, já disse pra Lívia que não acredito em sereia nenhuma. Aposto que é mentira da Amanda!


Mas, a irmã reagiu na hora: – Não chama minha amiga de mentirosa!
Lívia insistiu: – Mãe, você acredita em sereia?


– Euuuu? Como assim? Por que?
– Porque só tem nós três aqui e Nana já disse que não acredita.


Naquele momento, olhei nos olhos da minha filha e havia neles uma súplica: não desfaça meus sonhos, preciso deles! Olhei para Mariana e havia nela uma grave revelação: não me alimento de sonhos! Prefiro a verdade!


Estava completamente perdida... Entre a cruz e a espada! Apenas consegui dizer bem baixinho, talvez com vergonha de não saber ao certo o que deveria fazer.


– Na verdade, nunca vi uma sereia, Lívia.
– Ah mãe, com certeza só tem sereia lá em Fortaleza. Acho que você nunca foi lá. Já?
– Já..., mas foi por pouco tempo.


Mariana não se convenceu... – Mãe, aposto que se existisse, você teria visto alguma.


– Pois é, mas eu nunca vi nenhuma...


Lívia logo mudou de assunto, para o meu alívio. Perguntou qual era a sopa daquela noite. Respirei fundo aliviada... Mariana já foi reclamando... Havia perguntado no almoço e a funcionária de casa já tinha dito que eu mandara fazer de “orvilha”, a pior de todas as sopas.


– Nana, não é “orvilha”, mamãe já disse que é ervilha!
– Mas, eu não gosto mesmo assim! Quando eu crescer, nunca vou mandar minha filha comer estas coisas horríveis que você obriga eu e a Lívia comer. Mãe, eu não vou mais tomar sopa de “orvilha”. Quando eu crescer nunca mais vou comer estas coisas. Mãe? Você tá me ouvindo?
– Eu nem ligo, disse a irmã. Se meu pai tivesse com a gente ia ser bem melhor. Ele me dá chips, coca-cola. Quando eu crescer nunca vou me separar do meu marido, vou ser igual minha avó e meu avô. Mãe? Você ouviu o que eu disse?
– Eu ouvi sim! Você sempre foi muito boazinha para comer, seu pai não precisaria dar isso a você...
Mas, na verdade, eu estava distante, pensando até quando Lívia precisaria de sereias na sua vida... E Mariana? Como suportaria este mundo sem sonhos?


Mas, a discussão agora era sopas, pai e coca-cola, pensaria depois sobre sereias. Argumentei sobre a necessidade de comermos frutas, raízes, alimentos verdes. E pela centésima vez falei contra doces, carnes, refrigerantes, chips. Nada disso faz bem, por isso eu não comprava, não comia, nem tomava refrigerante.


Mariana resmungou...– É porque você não gosta! Mas, a gente gosta!


– Sim eu sei, mas não vou dar uma coisa para vocês, que não é saudável e não faz bem, só porque vocês gostam. Vejam as maritacas e o papagaio! Todos os dias mamãe dá pepino ou jiló a eles... Mariana não me deixou concluir. – É mãe..., tudo bem, mas eu não sou verde! Eles comem coisas verdes porque são verdes. Eu não!


Rimos muito!... Diante desta argumentação colorida era melhor dar um tempo...


Estávamos chegando em casa. Que susto! Lívia estava tirando a blusa do uniforme já no elevador. Não sabia, tinha um top por baixo da blusa. Quando abri a porta de casa, ela foi tirando a bermudinha da escola e já tinha, por baixo, um short. Ou seja, estava completamente pronta para descer!


– Vamos Nana? Você desce depois, né? To indo! Fui...
– Por que você não muda a roupa e desce com Lívia?
– A tia mandou procurar umas figuras...
– Sei, mas pode procurar isso amanhã de manhã, terá muito tempo até o almoço.
– Mas, e se eu esquecer?
– Mas, você nunca esquece...
– Prefiro fazer agora mesmo...
– Então vamos trocar a roupa?
– Só quando eu terminar minha tarefa. Mãe, já disse que a tia mandou...


Este era o ritual de Mariana. Não tirava o uniforme enquanto não terminasse seus deveres de casa, fosse lá o que fosse! Era sempre sincera, responsável, atenta. Enquanto isso a irmã já chegava em casa de tênis na mão, descalça, e com a roupa de descer por baixo do uniforme. E faria sua tarefa sob protestos no dia seguinte, sempre na última hora. Dizia que não adiantava estudar a noite, porque quando a gente dorme, esquece de tudo para sonhar. E quando a gente acorda, esquece dos sonhos e começa tudo outra vez.


–  Não é verdade, mãe?

 

 


 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Em Destaque

Verdades, Amores, Pares e Metades

December 18, 2017

1/5
Please reload

Posts Recentes

December 18, 2017

December 18, 2017

December 18, 2017

December 18, 2017

December 18, 2017

December 18, 2017

December 18, 2017

September 1, 2017

Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags
Please reload

Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

© 2017 by Dra Regina Coelho.

  • FaceBook
  • Instagram