Que beijinho doce...

December 18, 2017

Amava passar férias em João Neiva, uma pequena cidade do interior do Espírito Santo, cidade natal da minha mãe. Lá morava uma tia-avó muito querida e muitos primos e outro tio-avô e outros primos. Eles eram vizinhos. Todos descendentes de italianos.


Dizem que os galos cantam de madrugada antes do amanhecer. Mas, os lá de João Neiva, naquela época, eram bons cantadores, extrovertidos e alegres, pareciam nunca dormir e seus có có ró cóóóó ressoavam a noite toda. Morava no Rio de Janeiro em um bairro calmo, a família era pequena, somente quatro pessoas em casa. Naquela época não havia balas perdidas e as noites ainda eram silenciosas. Meu sono sempre foi leve e apesar de dormir pouco por causa das baladas dos galos de João Neiva, eu os amava e amava quase tudo de lá. Havia outros ruídos noturnos, não gostava muito destes, eram roncos e gases intestinais (rs)..., da grande família de italianos que se alimentavam fartamente e nunca fechavam as portas dos quartos. E eu despertava sobressaltada muitas vezes durante a noite.
Ficava sempre na casa da minha tia que tinha seis filhos e, além desses, sempre tinha parentes e agregados hospedados. Era uma casa grande e para se chegar ao único banheiro era preciso atravessar a sala, a cozinha e a copa. Resolveram o problema da necessidade noturna de fazer xixi das crianças colocando pinicos embaixo das camas. Mas, não eram só as crianças que faziam xixi nos pinicos, os adultos também faziam e seus pinicos eram bem maiores que os nossos. Também não gostava muito desta parte, nem do cheiro forte de xixi que ficava nos quartos durante a noite. No entanto, a amorosidade daquela família era tão grande e os encantos, as descobertas e as novidades da vida que palpitava naquela pequena cidade do interior eram tantas, que superavam, de longe, minhas noites mal dormidas.
Minha tia era a primeira a levantar. Acho que ela também tinha problemas com os galos, pois acordava antes do dia clarear todos os dias. Eu a seguia, íamos direto para a cozinha. Gostava de colaborar assoprando as cinzas e a lenha velha que ficava acesa do dia anterior, dentro do antigo fogão a lenha. Esperávamos o fogo “pegar” para esquentar a água do café. Adorava ver o dia clarear e o sol nascer. Lembro-me do enorme coador de pano e do bule, do cheiro do café passando e das garrafas térmicas vermelhas. Ajudava arrumar a mesa da copa. A esta altura, lá fora, já vinha um homem puxando um pequeno burro com dois latões de leite pendurados, um de cada lado, e um sino no pescoço, do animal, avisando que estava passando com o leite e o pão. Corria com a vasilha que ele derramaria o leite para a família toda. Gostava destes cheiros da manhã. Do orvalho que pingava das folhas e das flores úmidas do quintal... Aos poucos, a grande família ia despertando e os mais dorminhocos eram expulsos da cama, assim que começava a limpeza da casa. Entre protestos e insultos, todos estariam logo de pé. Havia outro cheiro que nunca esqueci. O do creme dental que usávamos. Acho que só existia kollynos e colgate, não tenho certeza. Mas, todos nós usávamos kollynos. Havia um cheiro muito especial de menta naquele creme dental, era muito bom. E até hoje quando vejo a caixinha verde-amarela da kollynos que virou Sorriso, dou um sorriso e me transporto para aquelas manhãs..., uma velha pia do lado de fora do banheiro, e aquela família despertando e escovando os dentes, todos com o mesmo cheiro do creme dental kollynos...  


Todas as casas tinham um grande lado de fora, esta foi a forma de descrever “quintal” para o meu pai quando voltei das férias. E eu me maravilhava com este lado, onde ficavam os cachorros, as galinhas chocando ovos, os pintinhos, os tais galos e os porcos no fundo do quintal. Morria de pena dos porcos! As gatas ficavam dentro de casa, e apesar dos protestos dormiam perto do fogão a lenha. Uma delas era amarela, branca e  cinza. Era muito mansa e dócil e a outra era arisca, branca e preta. Ambas tinham olhos verdes e estavam prenhas nestas férias. Era muito pequena, não compreendia muito bem como funcionavam essas coisas de estarem prenhas, mas sabia que ambas teriam gatinhos.  Não se falava sobre estas coisas com crianças. Havia uma casinha velha nos fundos da casa, que servia de depósito para a grande venda que ficava ao lado da casa. Meu tio era comerciante e trabalhava na venda. Ele era alto, elegante e tinha os olhos azuis. Minha tia, linda e gorda, trabalhava muito em casa, na loja, na máquina de costura. Só parava a noite, quando já estava exausta, na hora de dormir. Admirava sua força, sua coragem e seu coração bondoso. Sempre a amei.


Meu outro tio-avô, também irmão da minha avó materna, tocava trombone. Ensaiava o dia todo e tocava na banda da cidade que embalava os bailes. Ele era baixinho, careca e barrigudinho, usava um óculos de lentes grossas esverdeadas e suava em bicas tocando seu trombone. Era feio que só! Coitado! Sua esposa, minha outra tia, era charmosa, trabalhava só em casa e seus dois filhos eram os primos mais velhos que eu tinha, já não moravam mais lá. Tinham ido estudar em Vitória.


Passava o dia com os meus primos mais novos, a caçula e o caçulo da minha tia. Tudo era novidade, mas os detalhes da natureza, desconhecida para mim, me fascinavam completamente.


Segui as gatas durante dias, coitadas! Precisava saber onde teriam seus filhotes. Não poderia perder este acontecimento. Primeiro foi o parto da gata amarela. Ela me permitiu ver os gatinhos nascerem. Senti uma imensa emoção e um sentimento tão grande de respeito pela coragem daquela gata...

 

Nasceram seis gatinhos, ajudei a acomodá-los enquanto a gata lambia suas crias, cortava seus cordões umbilicais e comia suas placentas. Eles iam direto mamar com seus olhinhos ainda bem fechados. Eram lindos os bebês. Eu alimentava a gata que não saia do seu ninho para nada. Nem ela, nem eu! Ela me parecia muito fraca, mas continuava muito dócil e parecia ter orgulho de sua ninhada. Os dias foram passando e eu vivia arranhada dos gatinhos. Não vi o parto da outra gata, ela foi para o forro da casa. Fiquei horrorizada quando me disseram que ela sempre comia suas crias. Tive pesadelos com a gata arisca durante várias noites!


Vi galinhas botando ovos e pintinhos quebrando suas cascas, nascendo. Quantas emoções vivi nestas férias! E ainda viveria outras que estavam por vir... Mas, estava muito curiosa para saber como as gatas ficavam prenhas. Ninguém me respondia, diziam que não era assunto de crianças. Pensava também nas mulheres grávidas... Em João Neiva havia misteriosas cegonhas que traziam os bebês para suas mães. Não conseguia compreender aquilo de foram alguma. Procurei uma prima mais velha, um pouco mais sensível às crianças e ela me disse que teria que perguntar estas coisas a minha mãe quando chegasse ao Rio. Disse-me que o mundo dos adultos era cheio de segredos proibidos para crianças. E para complicar ainda mais, falou-me que havia sementes que se transformavam na barriga... E assim..., gatas ficavam prenhas, mulheres ficavam grávidas, etc. Esta foi a pior de todas as explicações. Fiquei apavorada com as tais sementes... Quais seriam? Que prima perversa! Porque não contava logo? Era muito pequena, adorava manga, melancia, mexerica, laranja... Pensei em evitar todas elas até que minha mãe me contasse a verdade. Dormi mal e tive pesadelos com as sementes de melancia que havia engolido sem querer... E se elas virassem alguma coisa dentro de mim? Que mundo mais esquisito! Quantos mistérios!


No outro dia, brincava distraída no quintal, preocupada ainda com as tais sementes e com as questões do dia anterior, pensava no meu último pesadelo.


Minha tia vizinha lavava roupa no tanque de lá, que ficava bem junto da cerca que separava as duas casas. Ela cantava e parecia bem humorada. A tia que eu amava estava também perto da cerca, do lado de cá, fazendo sei lá o que. Talvez estivesse podando as plantas. Havia pequenos arbustos floridos e enorme trepadeira junto à cerca. Sabia que as duas não se gostavam, mas não sabia porque. Outro assunto proibido para as crianças. De repente a tia vizinha cantarolou algo de lá do outro lado...  
Alguma coisa como:


– Que beijinho doooce..., que eeele me deu!
– Beijinho doooce ééé...???


Meu Deus que desastre! Que fúria deu na minha tia de cá! Ela não parava de gritar e xingar descontroladamente!


Não conseguia se acalmar... Não parava de xingar e gritar...


Que era aquilo? E a raiva dela era tão grande, não conseguia se controlar. Jamais presenciara um ataque de ódio tão grande e tão doloroso! Foi socorrida pela filha de criação que lhe fez tomar água com açúcar. Eu estava perplexa! Não ousava dar uma palavra. Que significava tudo aquilo? No outro dia perguntei a prima de criação sobre o ocorrido. Ela me disse que meu tio de cá, estava tendo um “caso” com a tia vizinha de lá, sua concunhada. Perguntei...– O que era um “caso”? Ela me olhou e disse: – Casos e sementes não são assuntos de crianças. Pergunte a sua mãe quando chegar no Rio!
Meu Deus, o mundo dos adultos era muito esquisito! Era cheio de segredos, casos e sementes tão misteriosas... Estava preocupada com as sementes de melancia que havia engolido! Voltei para o Rio de Janeiro cheia de dúvidas e com a certeza que aquele beijinho doce significava um amargo entendimento sobre os adultos e o fim da minha doce inocência...
 

 


 

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